A Cúpula dos Povos, evento paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), chegou ao seu fim neste domingo, 16 de novembro de 2025, em Belém, Pará. O encerramento foi marcado por uma poderosa mensagem do cacique Raoni Metuktire, que convocou os participantes a darem continuidade à missão de defender a vida no planeta e os modos de vida dos povos originários e ancestrais, um alerta que ele vem fazendo há décadas à comunidade global. Em seu pronunciamento, Raoni Metuktire relembrou que, há muito tempo, tem alertado sobre os problemas que o mundo enfrenta hoje, incluindo as intensas mudanças climáticas e os conflitos globais que geram instabilidade. Ele enfatizou a necessidade urgente de combater aqueles que visam destruir a Terra, conclamando a todos a manterem a vigilância e a luta por um futuro mais justo e sustentável. O evento, que durou cinco dias, culminou com um "banquetaço" e celebração cultural aberta ao público na Praça da República, no centro da capital paraense. Carta Final Critica Falsas Soluções e o Capitalismo. No ato de encerramento da Cúpula dos Povos, foi lida uma carta final que expressou fortes críticas ao que os participantes consideraram "falsas soluções" para enfrentar a emergência climática global. O documento, orientado pelo internacionalismo popular, ressaltou a importância do intercâmbio de conhecimentos e saberes que constroem laços de solidariedade e cooperação entre os povos na luta por um mundo melhor e pela preservação do meio ambiente. "As verdadeiras soluções são fortalecidas por esta troca de experiências, desenvolvidas em nossos territórios e por muitas mãos. Temos o compromisso de estimular, convocar e fortalecer essas construções", afirmou o documento da Cúpula dos Povos. A carta foi entregue ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, que se comprometeu a apresentá-la nas reuniões de alto nível da Conferência, programadas para iniciar na segunda-feira, 17 de novembro de 2025. O texto ainda destacou que "não há vida sem natureza" e "sem a ética e o trabalho de cuidado", posicionando o feminismo como parte central do projeto político que prioriza a reprodução da vida em detrimento da lógica de lucro e acumulação privada de riquezas do sistema econômico dominante. Denúncias de Imperialismo e Conflitos Globais. O documento, que resultou dos debates intensos da cúpula, identificou o modo de produção capitalista como a principal causa da crescente crise climática, alertando que as comunidades periféricas são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos e pelo racismo ambiental. Além disso, apontou empresas transnacionais dos setores de mineração, energia, armas, agronegócio e Big Techs como as maiores responsáveis pela catástrofe ambiental. A carta exigiu a demarcação de terras indígenas e de outros povos, reforma agrária, fomento à agroecologia, o fim do uso de combustíveis fósseis, financiamento público para uma transição justa com taxação de corporações e dos mais ricos, e o fim das guerras, clamando por maior protagonismo dos povos nas soluções climáticas globais. A cúpula cobrou a participação efetiva e o protagonismo dos povos na construção de soluções climáticas, reconhecendo os saberes ancestrais e a multidiversidade de culturas e cosmovisões como referências essenciais para enfrentar as múltiplas crises que afetam a humanidade e a Mãe Natureza, buscando um equilíbrio fundamental. O texto condenou veementemente o avanço da extrema direita, do fascismo e dos conflitos armados pelo mundo, expressando repúdio total ao que classificou como "genocídio praticado contra a Palestina" e solidariedade ao seu povo, apoiando o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Igualmente, criticou a ação militar dos Estados Unidos no Mar do Caribe, interpretada como uma ameaça imperialista aos povos e países da região e da África, solidarizando-se com a resistência de diversas nações como Venezuela, Cuba, Haiti, Equador, Panamá, Colômbia, El Salvador e nações africanas. A Cúpula dos Povos mobilizou aproximadamente 70 mil pessoas de movimentos sociais locais, nacionais e internacionais, incluindo povos originários e tradicionais, camponeses, quilombolas, pescadores, extrativistas, trabalhadores urbanos, sindicalistas, população em situação de rua, quebradeiras de coco babaçu, povos de terreiro, mulheres, comunidade LGBTQIAPN+, jovens, afrodescendentes e idosos. O evento, considerado o maior espaço de participação social da conferência climática, teve início em 12 de novembro, em paralelo à COP30, com a presença de cerca de 1.300 organizações e movimentos. Na abertura, foi realizada uma "barqueata" com centenas de embarcações que navegaram pela Baía do Guajará, defendendo a Amazônia e seus povos tradicionais. Os participantes criticaram a ausência de maior participação popular na COP30, lamentando que países e tomadores de decisão, especialmente de nações ricas, se omitam ou apresentem soluções ineficazes, colocando em risco a meta de 1,5°C do Acordo de Paris. As organizações envolvidas destacaram que as águas amazônicas nutrem a vida e inspiram a luta por um mundo de bem viver, reconhecendo a presença de seres fundamentais na cosmovisão dos povos originários e tradicionais. Em 15 de novembro, uma Marcha Mundial pelo Clima reuniu cerca de 70 mil pessoas, expondo a rica diversidade cultural amazônica nas ruas de Belém.