
Na Vila da Barca, em Belém, mora Cleonice Vera Cruz, de 77 anos, uma das residentes mais antigas. Ela vive há quase sessenta anos no bairro centenário às margens da baía do Guajará. A região é conhecida pelas vulneráveis casas de madeira sobre palafitas, construídas devido ao aumento das marés. Hoje, é uma das maiores comunidades urbanas de palafitas da América Latina.
Ao lado, o contraste é notável com os sofisticados prédios da região das Docas, principal ponto turístico de Belém, que recebeu significativos investimentos durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), evento que termina esta semana. A diferença evidencia a desigualdade social evidenciada pelas obras na capital paraense.
Em meio à vulnerabilidade, Cleonice expressa a insegurança das moradias: 1Se alguém passa do lado, a casa treme, conta ela. Durante enchentes ou chuvas intensas, o medo cresce, como em uma recente tempestade que alagou sua residência devido às frestas no piso de madeira.
NA madrugada da última sexta-feira, uma casa desabou. Quatro pessoas, incluindo uma criança, saíram ilesas após ouvirem estalos que alertaram para o desabamento, relatam moradores.
A tragédia ocorreu quando a COP30 encerrava sua primeira semana, expondo que a crise ambiental é também habitacional e social, agravando a dificuldade dos marginalizados. Gerson Siqueira, presidente da Associação de Moradores, destaca a falta de foco em proteção e infraestrutura para aqueles que vivem nas florestas amazo3nicas.
Um estudo da ONG Habitat para a Humanidade Brasil, apresentado na COP30, mostrou que 66,58% dos habitantes de áreas de risco são negros. A pesquisa, que analisou 129 cidades, revelou que muitos desses lares são comandados por mulheres com rendimentos bem abaixo da média.
4A maioria vive em lugares sem saneamento ou coleta adequada de lixo, ressaltou Raquel Ludermir, da Habitat Brasil.
Maria Isabel Cunha, conhecida como Bebel, exemplifica o perfil descrito: mãe solo de dois filhos, um com deficiência. Apesar de gostar da vila e da comunidade, ela expressa carência por serviços públicos de apoio ao filho.
Com cerca de 600 moradias, a Vila da Barca abriga mais de mil famílias. Recentemente, obras de saneamento avaliada em quinze milhões de reais foram iniciadas, sendo que a água já chega a essas residências. A comunidade espera por um conjunto habitacional com infraestrutura para uma vida digna.
4Fortalecer a resiliência dessas populações é essencial, evitando soluções que resultem na remoção delas, o que seria injusto, conclui Ludermir.
Entre os debates da COP30, apenas 8% das metas climáticas globais incluem a questão urbana, ignorando a necessidade de adaptação habitacional. A Vila da Barca continua lutando por reconhecimento e melhores condições de vida em meio à efervescência cultural do Pará.