Dinossauros viveram na Amazônia, descobrem pesquisadores de Roraima

Mais de dez pegadas fósseis da era Jurássico-Cretácea foram encontradas na Bacia do Tacutu, em Bonfim.

16/11/2025 às 13:56
Por: Redação
Pesquisadores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) anunciaram uma descoberta sem precedentes, identificando pela primeira vez indícios da presença de dinossauros na Amazônia, em um período que remonta a mais de 103 milhões de anos. Este achado pioneiro desafia o conhecimento prévio, pois, embora a existência de dinossauros fosse reconhecida em outras partes do Brasil, a região amazônica carecia de evidências concretas até agora. A principal prova são mais de dez pegadas fósseis da era Jurássico-Cretácea.Essas antigas pegadas foram localizadas na Bacia do Tacutu, especificamente no município de Bonfim, situado na porção norte de Roraima. Embora não seja possível determinar com precisão as espécies exatas dos dinossauros responsáveis, os vestígios revelam a coexistência de diversos grupos na área. Entre eles, foram identificados raptores, ornitópodes – dinossauros bípedes e herbívoros – e xireóforos, conhecidos por sua distintiva armadura óssea.O Mecanismo de Preservação no Ambiente AmazônicoA Amazônia sempre representou um desafio para a paleontologia devido às suas rochas estarem frequentemente expostas ao processo de intemperização, que causa o desgaste e a decomposição. Este fenômeno natural dificultou historicamente a preservação de fósseis na região, pois o material ósseo e outros vestígios se mantêm intactos mais eficientemente quando protegidos sob camadas de solo ou rochas.O pesquisador Lucas Barros, que liderou a análise das pegadas, explicou que a Bacia do Tacutu era um vale caracterizado por múltiplos canais fluviais e abundante vegetação. Em um ambiente com alta umidade, as margens dos rios também permaneciam molhadas. Quando os dinossauros deixavam suas pegadas, o solo gradualmente perdia a umidade e endurecia, permitindo que os rastros resistissem ao soterramento.“Se você tem um vale com muita umidade, as barras do rio também ficarão úmidas. Após o animal fazer essa pegada, ela perde, com o tempo, a umidade e fica dura. Isso permite que ela resista ao processo de soterramento”, afirmou Lucas Barros.Com o passar de milhões de anos, as pegadas soterradas se solidificaram, transformando-se em rochas capazes de suportar a erosão e a ação intempérica, mesmo quando expostas. Além disso, a presença de uma formação vegetal de cerrado na Bacia do Tacutu desempenhou um papel crucial na conservação dessas impressões, criando um ambiente propício para a manutenção dos registros geológicos ao longo do tempo.Barros complementou que essas “manchas de savana” facilitam a visualização de afloramentos rochosos, o que é fundamental para a identificação de conteúdo fossilífero. Essa particularidade geográfica tem possibilitado não apenas a descoberta das pegadas de dinossauros, mas também de fósseis de invertebrados, vegetais, troncos fossilizados e impressões de folhas, enriquecendo o panorama paleológico da Amazônia.A Trajetória da Descoberta e os Próximos PassosAs pegadas foram inicialmente identificadas em 2014 durante uma expedição de campo de alunos de geologia da UFRR, sob a liderança do professor Vladimir Souza. Na época, a universidade não dispunha de especialistas em paleoecologia nem dos equipamentos necessários para uma análise aprofundada, o que levou ao arquivamento do projeto e à decisão de não divulgar a descoberta para evitar que outros pesquisadores assumissem a pesquisa.O estudo foi reativado em 2021 por Lucas Barros, que o transformou em sua tese de mestrado, desenvolvida em colaboração com o professor Felipe Pinheiro da Unipampa. Barros dedicou-se a mapear os locais que possuíam icnofósseis – vestígios da presença de organismos do passado. Para a identificação e descrição precisa das pegadas, a equipe utilizou a técnica de fotogrametria, que permite a criação de modelos 3D de alta fidelidade dos achados.Lucas Barros estima que existam ainda centenas de pegadas a serem exploradas na Bacia do Tacutu. Atualmente, o pesquisador investiga novos vestígios localizados na terra indígena Jabuti, onde já foram identificadas quatro áreas de significativo valor científico, prometendo expandir ainda mais o conhecimento sobre a vida pré-histórica na região amazônica.No entanto, a pesquisa enfrenta desafios consideráveis, pois muitas das pegadas estão localizadas em propriedades privadas. Fazendeiros da região expressam preocupações de que os estudos possam levar a demarcações de terras, à desapropriação de suas propriedades pelo governo ou a indenizações consideradas insuficientes, o que dificulta a plena investigação e proteção desses importantes patrimônios paleontológicos.

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