
A influenciadora Jaqueline Pinheiro, sob o nome Jaque Conserta, combina ativismo feminista com empreendedorismo social, viajando pelo Brasil para ensinar mulheres e pessoas não binárias a realizar consertos domésticos, tarefas tradicionalmente delegadas aos homens. As oficinas visam dar autonomia e empoderamento, livrando-as de situações onde seriam subestimadas.
A repercussão das aulas é amplamente divulgada em seu perfil no Instagram, onde ela soma mais de 111 mil seguidores. Jaque publica vídeos que satirizam comportamentos machistas, criando o neologismo "machulência" para descrever essas atitudes. Segundo ela, "duas coisas rompem bolhas nas redes sociais: o ódio e o humor. Eu não trabalho com ódio".
Formada em cinema pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Jaque cresceu em meio a ferramentas, passando férias na loja de materiais de construção da avó. Sua iniciativa de unir militância e renda surgiu há cerca de dez anos, visando promover a autonomia feminina e romper a divisão sexual do trabalho, que, segundo ela, "não desapareceu, apenas se disfarçou".
"Desde cedo, meninos ganham ferramentas, enquanto meninas recebem panelinhas", assinala Jaqueline.
Jaque enfatiza a necessidade de ensinar habilidades técnicas às mulheres, rompendo a crença estrutural de que reparos não são “coisa de mulher”. A ausência desse ensino cria a falsa crença de dependência feminina em relação a homens para soluções técnicas.
As oficinas revelam depoimentos de mulheres que enfrentaram abusos ao contratar serviços prestados por homens. Jaque indica que a dependência técnica pode levar a situações de violência e manipulação, destacando que a aquisição de tais habilidades é uma forma de resistência ao patriarcado.
"Quando uma mulher aprende a lidar com ferramentas, está rompendo com um dispositivo social de dependência", afirma.
Os relatos destacam profissionais que intimidam e cobram excessivamente, aproveitando-se da ausência de conhecimento técnico das clientes. Jaque vê isso como reflexo de uma estrutura social misógina amplamente disseminada.
Jaque também reflete sobre como a educação dos meninos precisa variar para que eles abracem responsabilidades de cuidado. Critica que apenas meninas ganhem bonecas, enquanto meninos são condicionados a evitar tarefas de cuidado e a ocupar posições de poder.
"Nossa cultura ensina que homens frustrados podem ser agressivos", observa, mencionando a importância de ensinar meninos a reconhecer e abdicar de posições de poder.
Sobre representação política, ela clama por maior participação feminina na política, destacando que, apesar de as mulheres serem a maioria do eleitorado, a representatividade ainda é mínima, com apenas 91 mulheres entre 513 deputados na Câmara Federal. Segundo Jaque, é essencial incentivar a formação de lideranças femininas para efetuar mudanças concretas.