
O Itaú Cultural (IC) lançou em São Paulo, nesta terça-feira (28), o "Dossiê Acessibilidade", visando garantir que pessoas com deficiência participem efetivamente dos processos artísticos e culturais. O documento, além de abordar dados estatísticos e legais, oferece orientações aos profissionais da cultura sobre a adaptação de espaços e obras para respeitar os direitos desse público à experiência artística completa.
Um princípio fundamental para os direitos das pessoas com deficiência é a autonomia. Porém, especialistas no evento destacaram que, para muitos dos mais de 18 milhões de brasileiros com deficiência, isso ainda é negado, não apenas em atividades cotidianas, mas também ao tentar acessar a literatura ou artes visuais.
De acordo com o especialista em acessibilidade, Claudio Rubino, muitas organizações e artistas aparentam se preocupar com acessibilidade, mas frequentemente oferecem apenas recursos limitados, como rampas ou a presença de intérpretes de Libras, negligenciando outras necessidades. Mariana Oliveira Arantes, pesquisadora, observou que "nem sempre os recursos são realmente convidativos e disponíveis", alertando que pisos táteis, por exemplo, podem levar a paredes em vez de guiarem eficazmente pessoas cegas.
O dossiê define "cultura def" como a valorização da diversidade e das experiências de pessoas com deficiência no âmbito cultural. Rubino observa que o termo "inclusão" implica que alguém está inserindo outra pessoa em um contexto, criando uma hierarquia indesejada. A luta é por igualdade também em cargos decisórios para pessoas com deficiência no mercado de trabalho.
Rubino, com experiência também no Instituto Tomie Ohtake, destacou que profissionais com deficiência não devem lutar sozinhos por mudanças em suas organizações: "É um processo colaborativo e contínuo, em que a gente assume riscos, que podem ser organizados de uma forma que parece muito simples, fácil, mas tem muito empenho, estrutura e organização".
Mariana Arantes, após visitar quase 200 espaços culturais na Grande São Paulo, notou deficiências no vocabulário dos agentes culturais. Ela criticou o uso de termos obsoletos, como "alunos especiais". A acadêmica ressaltou que a acessibilidade implica mais em mudanças comportamentais do que em investimentos financeiros.
Divina Prado, especialista em editoração, relembrou um projeto anterior com Rubino, o "Bolsa de Artista Tomie Ohtake", que tratou igualmente crianças com e sem deficiência e incluiu ferramentas como audiodescrição e texturas. Prado destacou que acompanhar as inovações tecnológicas é essencial para a acessibilidade, como passaram do uso de CDs para QR Codes em seus materiais.
Dois destaques do Instituto Tomie Ohtake incluem um caderno de ensaio intitulado "Povo", que explora sons representativos de comunidades, e o "Palavra", premiado no Prêmio Jabuti, com descrições sonoras e audiodescrições, visando uma experiência acessível e inclusiva de leitura.
O "Dossiê Acessibilidade" estará disponível no site do IC para consulta pública.