
Na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, jovens indígenas assumiram um papel central nas negociações diplomáticas. O evento contou com a maior participação de povos originários e comunidades tradicionais, que ocuparam mobilizações de rua e debates na cidade, além de participarem das discussões internacionais em andamento.
Esses jovens foram preparados por meio do programa de formação Kuntari Katu, resultado de uma parceria entre os ministérios dos Povos Indígenas (MPI), das Relações Exteriores (MRE) e o Instituto Rio Branco. O curso, iniciado em agosto de 2024, preparou 30 jovens indígenas de todo o Brasil durante mais de um ano para participarem da COP30, que termina nesta sexta-feira (21).
O curso Kuntari Katu visou treinar os participantes com ferramentas essenciais para atuação em fóruns internacionais. Ministradas por diplomatas experientes e especialistas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), as aulas abordaram desde o financiamento climático até mecanismos de mercado de carbono, incluindo integração de agendas de biodiversidade.
"Estar presente na negociação é importante para falarmos da nossa realidade", diz Wasady Xakriabá, liderança indígena de Minas Gerais.
Na COP30, Wasady Xakriabá acompanhou a Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas, mecanismo oficial da ONU para discutir questões desses grupos. Eliel Camlem, do povo Xokleng Laklãnõ de Santa Catarina, destacou desafios enfrentados, como a disputa por conceitos nos documentos finais e a força dos indígenas mesmo em número reduzido.
Jean Truká, do povo Truká de Pernambuco, relatou dificuldades na introdução de novos termos nas negociações, como o conceito de demarcação territorial. Segundo ele, outras nações não aceitam o termo da mesma forma que o Brasil, gerando entraves. Essa questão é crucial para os indígenas, que argumentam pela importância da demarcação em discussões climáticas.
"Está nas nossas mãos trazer a voz das florestas, das árvores e dos animais nessas negociações", afirma Wasady.
A dificuldade do idioma é outro obstáculo para os indígenas, com reuniões muitas vezes realizadas em inglês e espanhol, o que limita a participação plena. Mesmo assim, Wasady e seus pares destacam a importância de serem os representantes dos seres que habitam seus territórios.
Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, idealizou o curso Kuntari Katu para garantir a presença indígena em debates e sua capacidade de influência. O curso já teve participantes em conferências anteriores, como a COP16 na Colômbia e a COP29 no Azerbaijão, preparando os indígenas para os desafios na COP30 em Belém.
"Esses jovens estão falando sobre suas realidades e a importância dos territórios indígenas para a mitigação climática", destacou a ministra Guajajara.
O curso foi fundamental para que as lideranças indígenas pudessem intervir de maneira significativa na COP30, reiterando a relevância dos territórios indígenas na resposta à emergência climática global.