Na manhã desta quinta-feira, 20 de novembro, a Avenida Paulista, centro de São Paulo, tornou-se palco para a 22ª Marcha da Consciência Negra - Zumbi e Dandara 300+30. O evento, organizado pelo Movimento Negro Unificado (MNU) e a União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro), reuniu centenas de pessoas em um ato simbólico que reforçou a importância histórica de Palmares e a presença dos negros em posições de poder na sociedade.
Os participantes da marcha, em sua maioria ativistas e simpatizantes da causa negra, celebraram a cultura e a luta por igualdade através de apresentações culturais. O ato contou com danças e músicas de religiosidade afro-brasileira e shows variados que incluíram ritmos como reggae, MPB e Black Music. Durante as intervenções, discursos destacaram a necessidade da mobilização em torno de questões comuns à comunidade negra.
O professor Ailton Santos, ligado à organização do evento, enfatizou a persistência da exclusão social dos negros no Brasil. Em declaração à Agência Brasil, ele destacou a urgência de incluir efetivamente os negros em uma sociedade que se autointitula democrática, mas que, ainda, marginaliza uma parte significativa de sua população.
"Diariamente, o povo negro sofre em função de várias violências. Normalmente falamos da morte matada, mas esse é o último estágio, porque até ela chegar, passamos diariamente por outras, que envolvem mobilidade, segurança, saúde e educação."
Segundo ele, a cobertânda social precisa ser ajustada para contemplar uma reparação justa, com projetos que ampliem a participação dos negros nas decisões sociais e políticas. A proposta atual na mesa envolve um fundo de 20 milhões de reais para este fim.
Ana Paula Félix, 56 anos, que esteve presente na marcha, compartilhou suas preocupações sobre o preconceito e as dificuldades enfrentadas pela população negra. Ela valorizou as conquistas de seus filhos por meio de acesso a políticas públicas de educação, mas reafirmou que os desafios do dia a dia continuam a ser ameaças constantes.
"Você sabe que periferia ainda é o pior lugar para os negros morarem, porque é o lugar que a polícia não respeita. E nossos filhos é que pagam esse preço. Então a gente tem que estar sempre falando aos nossos filhos: Cuidado, não corre na rua, anda sempre com documento, põe sempre a camisa, esteja sempre com o cabelo cortado, barba feita. Porque são os negros que mais morrem."
Pais como Ana Paula vivem na dualidade entre celebrar avanços e permanecer vigilantes quanto às realidades que ainda precisam ser transformadas, destacando a importância de uma comunidade unida e ativa.
A caminhada seguiu até o Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde novas pautas e reivindicações foram colocadas à mesa. Giovana Santos, de 31 anos, que trabalha como atendente de telemarketing, parou para ouvir. Ela considera fundamental acompanhar quais políticas públicas estão efetivamente em prática, especialmente quanto à violência policial, uma questão que julga essencial para a comunidade.
"Temos visto a polícia, que deveria sempre nos proteger, nos atacar. É muito importante a população saber disso, e é muito bom saber que os movimentos têm se organizado para reivindicar. Embora ainda pareça um sonho, a gente sentar e conversar e tentar se entender", afirmou.
Essas discussões e encontros são elementares para um movimento que busca, além de preservar a memória e a cultura, tornar efetivas as mudanças pela igualdade e justiça social no tecido da sociedade brasileira.