Peças pré-colombianas do Museu do Marajó digitalizadas em 3D

Projeto da PUC-RJ cataloga 47 artefatos, garantindo preservação e acesso à cultura marajoara para futuras gerações.

16/11/2025 às 12:54
Por: Redação

Um projeto inovador desenvolvido no Biodesign Lab da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) está revolucionando a preservação do patrimônio cultural pré-colombiano brasileiro. A iniciativa consistiu na digitalização em 3D de pelo menos 47 vasos, urnas e outros artefatos raros do acervo do Museu do Marajó, situados em Cachoeira de Arari, na Ilha do Marajó, no estado do Pará, que datam de antes da chegada dos europeus ao continente, possibilitando a catalogação e reconstrução de itens quebrados por meio da tecnologia.

Essa empreitada tecnológica, liderada pelo professor Jorge Lopes, responsável pelo laboratório, visa assegurar a permanência e acessibilidade da rica cultura marajoara para as futuras gerações. Os arquivos digitais gerados permitem não apenas a recriação física das peças, caso necessário, mas também sua exploração em realidade aumentada e virtual, um avanço significativo para o estudo e a divulgação desses tesouros históricos.

Avanço Tecnológico na Preservação Cultural

Com cerca de duas décadas de experiência na digitalização de peças, incluindo o acervo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – trabalho crucial após o incêndio de 2018 –, o professor Lopes aplicou o conhecimento acumulado para replicar o processo na Ilha do Marajó. O arquipélago, considerado o maior flúvio-marítimo do planeta, é o berço de uma das sociedades pré-colombianas mais desenvolvidas do Brasil, notável pela complexidade de sua cerâmica utilitária e ritualística.


“Alguns vasos já estão em realidade aumentada. Você pode remontar eles digitalmente. E vários outros, a gente tem arquivos matemáticos, que pode até imprimir em 3D se quiser. Você pode fazer tanto em realidade aumentada ou em realidade virtual”, explicou Jorge Lopes.


O meticuloso processo de digitalização envolveu o escaneamento em 3D de alta resolução e a aplicação de realidade aumentada, com a equipe da PUC-RJ visitando o museu para capturar cada artefato de diversos ângulos. Após a aquisição dos dados brutos, um software especializado refina os modelos digitais para que sejam idênticos aos originais, um trabalho que demanda precisão e atenção aos detalhes como textura, cor e volume.

Metodologia e Desafios da Digitalização

Gerson Ribeiro, especialista em escaneamento 3D do Biodesign Lab, ressaltou que o maior obstáculo foi garantir a fidelidade na captação dos detalhes físicos das peças para o ambiente digital. Ele comparou o funcionamento do escaneamento com a visão humana, onde obstáculos impedem a visualização. Um dos maiores desafios práticos foi a impossibilidade de mover itens de grande porte, como vasos e urnas funerárias, o que dificultou a utilização dos equipamentos de scanner e fotogrametria.


“O escaneamento funciona muito próximo do que é o nosso olho. Então, o que a gente vê, o escaneador também consegue ver. Se tiver um objeto bloqueando a visão, ele também não vai conseguir ver”, detalhou Gerson Ribeiro.


Para superar essas dificuldades, a equipe empregou uma combinação de tecnologias. A fotogrametria, técnica que analisa múltiplas fotos tiradas de diferentes ângulos para calcular a profundidade e criar um modelo tridimensional, foi essencial. Complementarmente, foram utilizados um scanner de luz infravermelha para objetos menores e um scanner de luz branca, considerado o mais preciso, que capturou a maioria das peças, preservando suas texturas e cores originais.

O Projeto Amazonizar e seu Legado

A digitalização do acervo do Museu do Marajó é parte integrante do meta-projeto Amazonizar, uma iniciativa abrangente da PUC-RJ focada em ações ambientais e sociais na região. Além da conservação da cultura marajoara, o projeto estabeleceu parceria com o município de Cachoeira de Arari para promover o desenvolvimento profissional e social, através de oficinas de empreendedorismo destinadas a artesãs bordadeiras e cursos de tecnologia para jovens.

Jackeline Lima Farbiarz, Vice-reitora de Extensão e Estratégia Pedagógica, enfatizou que o Amazonizar busca integrar a Amazônia ao centro das discussões acadêmicas da universidade, ao mesmo tempo em que leva a instituição para a região, fomentando o conhecimento e a sensibilização da comunidade. Essa abordagem multifacetada garante não apenas a preservação do passado, mas também o investimento no futuro das comunidades amazônicas.

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