Tombamento do Antigo Dops no Rio: Decisão Próxima

Imóvel símbolo da repressão política pode virar centro de memória

12/11/2025 às 14:29
Por: Redação

Um edifício histórico que abrigou a sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no centro do Rio de Janeiro está próximo de ser tombado definitivamente. O destino do imóvel, que se destaca pela sua arquitetura e simbolismo na repressão política do século passado, será decidido em uma reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), marcada para o dia 26 deste mês, com transmissão ao vivo pela internet.

O Iphan ressalta a importância histórica e artística do prédio, destacando seu papel nas lutas sociais e políticas pela democracia. O tombamento estipula que qualquer modificação no imóvel deverá contar com a aprovação do instituto. A medida também atende às solicitações da sociedade civil e do Ministério Público Federal (MPF), que há mais de quatro décadas pedem a transformação do local em um centro de memória.

Importância Histórica e Cultural

Inaugurado em 1910 com inspiração francesa, o edifício foi originalmente construído para ser a sede da Polícia Federal da época. Atualmente, está sob a posse da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, desde a década de 1960. O prédio, que já foi palco de prisão de opositores, possui celas solitárias e salas de depoimento com isolamento acústico, além de estar em mau estado de conservação desde 2014.

“O Dops tem muitos elementos autênticos”, afirmou Felipe Nin, membro do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação.

Embora tenha havido, até o início dos anos 2000, uma tentativa de criar um museu, o projeto foi abandonado. Recentes visitas constataram que o prédio ainda possui afrescos cobertos, vitrais quebrados e muitos de seus elementos originais preservados, apesar do desgaste do tempo.

Conservação e Memória

O tombamento irá assegurar que as características originais sejam mantidas, impedindo futuras descaracterizações. As celas femininas, que contam com inscrições das décadas de 1950 a 1980, terão que ser preservadas. O edifício foi palco de repressão a inúmeros opositores, um aspecto que o MPF e outros órgãos querem manter vivo para assegurar a memória histórica.

“É um projeto que exalta a Polícia Civil, mas que não menciona o Dops ou suas funções históricas”, criticou Nin ao avaliar propostas de uso do local que desconsideram sua importância como símbolo de repressão.

Nin também destacou a importância de relembrar o papel da cidade no cenário político, lembrando figuras como Olga Benário e Nise da Silveira, que foram encarceradas e torturadas ali. Segundo ele, é fundamental que a lembrança desses eventos contribua para evitar a repetição de atrocidades.

Preservação da Memória

A farmacêutica Ana Bursztyn Miranda, uma ex-prisioneira do Dops, reiterou a importância de um espaço dedicado à memória para combater ainda mais a violência estatal, algo que, segundo ela, é vital para que o terror daquele período não se repita.

“A tortura ainda acontece e precisamos reduzir a violência do Estado para que o terror daquela época não retorne”, enfatizou Ana em um protesto de 2015.

A Polícia Civil, por sua vez, confirmou o interesse em transformar o espaço em um centro cultural, embora ainda não tenha detalhado os planos para o local. Com o possível tombamento, o prédio terá garantias contra mudanças que apaguem sua importância histórica, enquanto o governo federal não reverte sua posse.

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