Na região da BR-319, situada na Amazônia, foram identificados pelo menos 2.240 quilômetros de estradas ilegais que adentram áreas de preservação ambiental, incluindo unidades de conservação federais. Dados do Observatório BR-319, uma rede de organizações dedicada à análise da rodovia, indicam que outras 1.297 quilômetros de vias igualmente clandestinas cruzam terras indígenas, situação divulgada recentemente. Conforme o estudo "Abertura de Ramais e Estradas Clandestinas como Vetores de Desmatamento no Interflúvio Madeira-Purus", essas rotas ilegais estão intimamente ligadas ao desmatamento, grilagens e à mineração, com dados coletados até agosto de 2025. A Vila Realidade, em Humaitá, destaca-se como uma área afetada por essas práticas, segundo o geógrafo Heitor Pinheiro, que insere o fenômeno em zonas de elevado desmatamento. ## Desafios ambientais O pesquisador aponta que o entroncamento de Humaitá, onde a BR-319 se encontra com a BR-230, concentra alta densidade de ramais ilegais. "Essas estruturas ilegais são agentes primários de conflito na região", afirmou Pinheiro em entrevista à Agência Brasil. Ele observa que a abertura dessas vias sem licenciamento ambiental facilita o acesso a áreas anteriormente isoladas, servindo de via para atividades de mineração e extração de madeira. A presença dos ramais ilegais aumenta a incidência de conflitos nas regiões afetadas. As implicações são graves, conforme destacou o consultor ambiental Thiago Castelano, que reside na Aldeia Canavial em Humaitá. Ele ressaltou que a construção clandestina dessas estradas é evidente tanto por meio presencial quanto por sensoriamento remoto, contribuindo para a devastação ambiental da área. ## Impacto em terras indígenas Castelano, membro da coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), observou que a presença de tratores nessas vias se intensificou na última década. No sul do Amazonas, próximo ao Rio Ipixuna, essas estradas impulsionam a devastação e desafiam a sustentabilidade das comunidades locais, incluindo a terra indígena Kaxarari. Políticas públicas crescentes pressionam a expansão agrícola e mineradora, exacerbando os desafios socioambientais. Na região de Lábrea, os dados geoespaciais destacam uma concentração notável de ramais, vinculando-se com a expansão da fronteira agrícola em conjunta ao avanço do setor minerador, que já possui 4.130 km de ramais sob áreas de interesse. ## Coordenação governamental Em resposta ao problema, o Ministério dos Transportes garantiu ações destinadas a melhorar a governança territorial da BR-319. Isso inclui a colaboração contínua entre agências governamentais para enfrentar os desafios apresentados por essas vias no entorno da rodovia. "Medidas de fiscalização intensa são essenciais para controlar acessos irregulares e proteger áreas sensíveis", afirmou a nota oficial do ministério. Por sua vez, a Funai destacou a importância do monitoramento remoto para detectar práticas ilegais. Desde 2015, essa abordagem tem sido utilizada na Amazônia Legal para calcular desmatamentos e uso irregular do solo. A entidade prevê melhorias metodológicas para permitir o delineamento das causas desses ilícitos.