
A Vila da Barca, uma das maiores comunidades urbanas de palafitas da América Latina, em Belém, expõe seus desafios durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Localizada às margens da baía do Guajará, a região é marcada por casas precárias que enfrentam as subidas da maré. Cleonice Vera Cruz, moradora há 60 anos, é um dos exemplos de resiliência em meio a essas condições adversas.
O contraste entre as palafitas e os apartamentos luxuosos na região das Docas é visível, especialmente com os investimentos realizados no contexto da COP30. Apesar da conferência atrair atenção internacional, pouco se fala sobre os moradores que vivem em condições precárias, à margem da cidade e dos debates.
As estruturas das casas de palafita são frágeis, balançando ao menor sinal de vento. Cleonice conta que a chuva constante molha o interior das residências: "É tudo furado aqui", comenta. Na última sexta-feira, o desabamento de uma casa ressaltou a vulnerabilidade da comunidade. A tragédia ocorreu enquanto a COP30 discutia soluções para o clima, mostrando a crise habitacional enfrentada por comunidades como a Vila da Barca.
"A gente precisa defender o meio ambiente, mas está se falando bem pouco sobre a proteção de quem mora debaixo das árvores", diz Gerson Siqueira, líder comunitário.
Além das discussões sobre a transição energética, a moradia digna permanece um tópico negligenciado. As propostas da COP30 ainda não refletem as necessidades específicas das populações que habitam essas áreas de risco.
Um estudo da Habitat para a Humanidade Brasil, apresentado na COP30, revela que 66,58% dos residentes em áreas de risco são negros. Essas regiões, sem infraestrutura básica, como esgoto e coleta de lixo, enfrentam desastres climáticos. Raquel Ludermir, da ONG Habitat, destaca que a maioria das pessoas nessas áreas vivem com metade da renda média.
"A maioria das pessoas em risco é de baixíssima renda, predominando mulheres chefes de domicílio", afirma Ludermir.
Maria Isabel Cunha, conhecida como Bebel na comunidade, é um exemplo desse perfil socioeconômico. Desempregada, com filhos para cuidar, ela representa a luta diária pela sobrevivência em meio às adversidades climáticas e econômicas.
Atualmente, a Vila da Barca está recebendo investimentos de 15 milhões de reais para melhorias no sistema de água e esgoto, com conclusão prevista para o próximo ano. Mesmo assim, os moradores questionam até quando viverão em palafitas sem uma solução habitacional definitiva. A vida cultural vibrante da vila, como as festas juninas e o Círio de Nazaré, contrasta com as dificuldades enfrentadas diariamente.
Raquel Ludermir destaca a necessidade de fortalecer a resiliência comunitária sem justificar a remoção de famílias.
Com apenas 8% das metas climáticas tratando de questões urbanas, a relação entre a crise climática e a habitacional é um desafio que precisa ser abordado em escala global, buscando soluções que garantam segurança e dignidade às comunidades afetadas.