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Formação ‘Vira a Chave’ em Aldeia Indígena: Lucro de Mais de R$ 2 Mil em Uma Semana

Seminário Empretec Indígena, em Mato Grosso do Sul, prova que conhecimento e atitude transformam vidas e geram renda, mesmo com desafios climáticos.

10/11/2025 às 10:03
Por: Redação
Formação Empreendedora Gera Mais de 2 Mil Reais em Lucro em Uma Semana para Indígenas de Mato Grosso do Sul Moradores da aldeia Marangatu, em Antônio João, experimentam transformação financeira e pessoal após seminário exclusivo focado no empreendedorismo. Apesar do frio intenso e da chuva persistente, que alteraram abruptamente as condições climáticas, o entusiasmo permaneceu elevado entre os participantes do seminário Empretec Indígena, realizado na aldeia Marangatu, localizada em Antônio João, Mato Grosso do Sul. O evento, promovido pelo Governo de Mato Grosso do Sul, através da Secretaria de Estado da Cidadania, em parceria com o Sebrae e com o apoio da Prefeitura de Antônio João, encerrou-se no último sábado, dia 1º, deixando um legado de histórias que exemplificam como o conhecimento pode efetivamente mudar vidas e impulsionar a geração de renda. Entre os participantes, a professora de Química Jéssica Barbosa de Carvalho, de 32 anos, teve um destaque notável. Inicialmente, Jéssica estava relutante em participar do curso. Ela chegou a questionar: “Para que eu faria este curso, se não possuo nada para comercializar?”. No entanto, incentivada pelos colegas, aceitou o desafio e concluiu o Empretec com uma perspectiva completamente renovada. Sua equipe, a “Estação do Sabor”, uma empresa simulada criada durante o seminário, conseguiu arrecadar expressivos 2.408 reais em apenas cinco dias de trabalho. Jéssica relatou que a experiência a fez compreender que empreender transcende a simples venda de produtos. “Percebi que o empreendedorismo é, acima de tudo, uma questão de atitude, persistência e comprometimento. Aprendi que o medo é o principal obstáculo que nos impede de tentar algo novo”, afirmou. Durante a formação, seu grupo inicialmente planejava abrir uma sorveteria, mas o clima adverso dos primeiros dias os levou a adaptar a ideia. “Se o tempo muda, o cardápio também pode mudar”, explicou Jéssica. Assim, surgiu a “Estação do Sabor”, que oferecia uma variedade de doces, caldos e pocheirada. Enfrentando o barro, a chuva e o cansaço, o grupo dedicou-se a vender seus produtos de porta em porta na comunidade. O resultado superou as expectativas dos próprios envolvidos. “Começamos as entregas debaixo de chuva e, ainda assim, obtivemos sucesso. Em cinco dias, faturamos 2.408 reais, um valor que representa quase a metade do meu salário como professora. Isso demonstrou que é totalmente possível, que temos a inteligência e a capacidade para fazer acontecer”, celebrou Jéssica. Para ela, que nunca havia vendido nada de porta em porta e considerava a atividade possivelmente “humilhante”, o exercício revelou-se profundamente transformador. “Compreendi que consigo persuadir as pessoas e concretizar projetos. Agora, desejo dar continuidade a esta iniciativa”, complementou. Empretec Indígena: Uma Metodologia de Autonomia e Transformação O Empretec, metodologia desenvolvida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e implementada no Brasil pelo Sebrae, tem como objetivo principal o desenvolvimento de comportamentos empreendedores. Desde 2024, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul passou a oferecer uma versão adaptada, o “Empretec Indígena”, uma iniciativa inédita no país. A primeira edição foi realizada em abril do ano passado, com o povo Ofaié, no município de Brasilândia. Durante seis dias intensos, os participantes são imersos em desafios práticos e discussões que visam estimular a autoconfiança, aprimorar a capacidade de planejamento e a busca por resultados concretos. O Empretec busca despertar o potencial individual e transformar atitudes, promovendo uma verdadeira imersão para aqueles que aspiram a empreender com propósito e assumir um papel de protagonismo. No encerramento do seminário na aldeia Marangatu, em Antônio João, Francisco Júnior, analista do Sebrae e facilitador do Empretec, abordou o profundo significado da formação e a importância de os participantes reconhecerem sua própria força. Ele afirmou: “Podemos dizer que este é o fim de um modo de vida que vocês vinham levando e o começo de algo novo, um período em que poderão dizer: ‘valeu a pena mudar, essa experiência veio no momento certo’. O mais crucial é lembrar que as únicas pessoas que podem determinar o que vocês podem ou não fazer são vocês mesmos. Diariamente, olhem para si e digam: ‘cheguei até aqui, imaginem o que posso conquistar daqui para a frente’”. O analista destacou que, ao longo da semana de aprendizado intenso, o grupo de 27 indígenas superou desafios e a si mesmos. Ele enfatizou a persistência demonstrada mesmo diante da chuva, do barro e do cansaço, caracterizando-a como força, resiliência e fé. “A partir de agora, a vida e a direção estão em suas mãos. Perguntem-se sempre: ‘o que posso fazer melhor do que ontem? O que posso fazer para que minha comunidade prospere comigo?’”, concluiu Francisco. Lideranças Celebram Conquistas e Projetam o Futuro para Comunidades Tradicionais Fernando Souza, subsecretário de Políticas Públicas para Povos Originários, expressou sua emoção ao presenciar o brilho nos olhos dos participantes e ressaltou a relevância de levar o programa para dentro das aldeias. “Sinto-me muito feliz por vocês. No primeiro dia aqui, percebi uma certa incerteza em seus rostos sobre o que seria o Empretec. Hoje, mesmo com o cansaço visível, vejo um brilho nos olhos, e isso é motivo de grande alegria para nós”, declarou. Fernando contextualizou o processo de introdução do Empretec em territórios indígenas pelo Governo do Estado, destacando as inúmeras barreiras superadas. “Vencemos muitos obstáculos porque acreditamos no potencial e na capacidade de trabalho de vocês. Enfrentamos resistências e questionamentos, como: ‘por que levar o Empretec para uma comunidade indígena?’, mas mantivemos a firmeza, pois sabemos que temos a aptidão para crescer. Eu sou uma prova disso. Podemos evoluir e melhorar de vida, sem jamais deixar de ser quem somos: Guarani, Kaiowá, Terena, Ofaié. Nosso objetivo é ver nosso povo prosperar, fortalecer-se e edificar um futuro mais promissor.” A vereadora de Antônio João e liderança da Terra Indígena Marangatu, Inaye Lopes, que também participou do Empretec, reforçou que o seminário concretiza um antigo anseio da comunidade. “Este curso era um sonho nosso desde o princípio. A comunidade necessitava de uma formação que ensinasse a utilizar o território de maneira produtiva e sustentável”, explicou. Ela agradeceu aos participantes que demonstraram confiança e se inscreveram, superando as dificuldades. Inaye destacou a diversidade dos participantes, incluindo jovens, acadêmicos e o senhor Carlos, de 78 anos, que, segundo ela, oferece um belo exemplo de que a determinação torna tudo possível. “Que venham mais cursos como este para fortalecer nossa juventude e nosso território”, desejou. Um notável exemplo de união familiar surgiu entre os participantes, com pai e filha decidindo transformar o aprendizado em um empreendimento real. Adão Benites, diretor da escola onde o seminário foi realizado, e sua filha, Karine Benites, desenvolveram uma empresa fictícia durante o curso que já se concretizou. “A ideia é comercializar doces, carne assada, frango caipira e caldos, produtos que já fazíamos. Agora, com o conhecimento adquirido, sentimos confiança para inaugurar oficialmente a ‘Soberana S.A.’, em parceria com minha esposa Cleusa e meu genro Adelso”, compartilhou Adão, morador da localidade Soberana, uma das doze subdivisões da Aldeia Marangatu. O nome da empresa homenageia o local de residência da família, a Soberana, simbolizando o orgulho de empreender com fortes raízes na terra indígena que os viu crescer. O Empretec Indígena, uma iniciativa do Governo de Mato Grosso do Sul, por meio da Secretaria de Estado da Cidadania, em colaboração com o Sebrae/MS e com o apoio de prefeituras municipais, integra uma agenda que valoriza o empreendedorismo como ferramenta essencial para a autonomia e a transformação social. Novas edições do programa já foram confirmadas para outros territórios indígenas. Adicionalmente, de forma inédita no Estado, será implementado o primeiro Empretec Quilombola, na cidade de Nioaque, expandindo o alcance da formação e reafirmando o compromisso com o fortalecimento das comunidades tradicionais.

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