Faixa na Cidade de Deus Implora por Vidas: "Aqui tem Crianças, Sonhos e Famílias"

ONG Nóiz instala alerta gigante em telhado para proteger moradores de incursões policiais e confrontos, em meio a histórico de violência.

31/10/2025 às 19:11
Por: Redação
Uma faixa com os dizeres “Calma! Aqui tem sonhos, crianças e famílias” foi instalada no telhado da organização não governamental (ONG) Nóiz, localizada no coração da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. A iniciativa, concretizada em 24 de outubro, visa alertar as autoridades sobre a presença de moradores, especialmente crianças, durante incursões policiais na região, frequentemente impactada por confrontos e ações com helicópteros.O bairro da Cidade de Deus, considerado um dos mais perigosos da capital fluminense, viu a faixa ser fixada dias antes da Operação Convenção, uma megaoperação governamental realizada em 28 de outubro, que resultou em diversas mortes e levantou discussões sobre a segurança. A sede da ONG, que funciona desde 2018 em uma casa colorida na área conhecida como Karatê-Rocinha 2, já foi alvo de tiros vindos de helicópteros há quatro anos, episódio que destruiu uma caixa d’água do local.André Melo, presidente da ONG Nóiz, explicou à Agência Brasil, em 31 de outubro, a necessidade da ação: “A gente precisava chamar a atenção de alguma maneira para dizer que, embora saibamos que a comunidade toda tem famílias, crianças, aqui, em especial, a gente passa o dia inteiro em atividade. Sempre foi temeroso ser alvo de helicóptero. Então, decidimos colocar a faixa para chamar a atenção das autoridades”. Ele reforçou a preocupação de que equipes da ONG e membros da comunidade não corram risco de vida, dada a intensidade das operações policiais na área.Atualmente, a ONG Nóiz atende cerca de 120 pessoas diariamente, entre crianças, jovens e adultos, e possui 250 crianças cadastradas. As atividades ocorrem de segunda a sábado, das 8h às 18h, preenchendo o contraturno escolar das crianças. A programação inclui dança contemporânea, balé, teatro, jiu jitsu, reforço escolar, o projeto de alfabetização “Soletrar” e uma lan house social com acesso comunitário à internet. A organização também oferece uma biblioteca aberta até as 18h, apoio psicológico e terapia ocupacional para oito crianças autistas, tudo isso durante a semana.Aos sábados, são realizadas o “Sábado do Acolhimento”, com atividades lúdicas para 40 a 50 crianças, um pré-vestibular social para jovens em busca de ingresso na universidade, com aulas que se estendem da manhã até a tarde, e um plantão de assistente social, que vai do início do dia até as 13h.Questionado sobre a eficácia de iniciativas semelhantes em outras comunidades para prevenir tragédias, como a da Operação Convenção, André Melo enfatizou a importância de fazer “tudo o que for possível” para alertar e promover maior cautela das autoridades. Embora admita a incerteza quanto à real eficácia da faixa, pois “não se pode saber o que se passa pela cabeça das pessoas, principalmente de cima para baixo”, Melo considera que qualquer tentativa de reduzir a sensação de insegurança nas comunidades é válida, sugerindo que mesmo uma faixa branca com a palavra “PAZ” teria valor.André Melo, publicitário de formação e empreendedor social, não nasceu na favela, mas dedica-se integralmente à ONG, trabalhando das 10h às 18h, e se cerca de alternativas para se proteger. A equipe da Nóiz é composta por 15 pessoas, incluindo voluntários e professores pagos, que trabalham em função das demandas da comunidade, como palestras sobre saúde mental com psiquiatras, atendimento psicológico para mães e acompanhamento de gestantes até os seis meses dos bebês.Para Melo, o Estado falha em criar referências para as crianças e jovens dessas comunidades, faltando um olhar atento para suas necessidades. Ele sugere que projetos bem-sucedidos de organizações não governamentais deveriam ser mapeados e replicados pelo governo. “Há uma fila enorme de famílias buscando vagas para suas crianças, e é perceptível o desespero delas em garantir que os filhos tenham referências positivas aqui”, declarou Melo, lamentando que o Estado não enxergue como transformar o futuro desses jovens. Ele conclui que, enquanto a sociedade encarar as comunidades de forma apartada, como se fossem “outro mundo”, nada dará certo.

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