
Os complexos da Penha e do Alemão, que abrigam mais de 150 mil pessoas, enfrentaram um dia de intenso conflito devido a uma operação policial. O cenário foi marcado por tiros e explosões, impactando não apenas os residentes, mas também quem passava pelas principais avenidas do Rio de Janeiro.
A operação, denominada Operação Contenção, resultou na morte de ao menos 64 pessoas, incluindo quatro policiais. A ação causou interrupção do tráfego nas principais vias, além do fechamento de escolas, unidades de saúde e comércio. De acordo com o governo estadual, 81 indivíduos foram detidos, juntamente com a apreensão de 93 armas. Esta foi a operação mais letal registrada no estado em 15 anos.
Analistas de segurança e especialistas criticaram severamente a operação, afirmando que a mesma intensificou a violência ao invés de reduzi-la. José Cláudio Souza Alves, professor da UFRRJ, destacou a necessidade de abordagens alternativas para combater o crime organizado, centradas em proporcionar melhores condições de vida e oportunidades nas comunidades.
Segundo Alves, a lógica bélica apenas causa mortes e sofrimento, afetando diretamente a mobilidade urbana e o acesso aos serviços públicos, impactando a economia sem realmente enfrentar o problema do crime. Ele enfatizou a importância de estratégias focadas na interceptação de dinheiro ilícito e na promoção de alternativas viáveis para as populações vulneráveis.
Jacqueline Muniz, professora da UFF, classificou a operação como "uma lambança político-operacional", destacando erros táticos evidentes. Para Muniz, a retirada substancial de policiais de suas áreas habituais de patrulhamento aumentou o risco tanto para os agentes quanto para a população, interrompendo fluxos essenciais na cidade e, por fim, não atingindo os objetivos estipulados contra o crime organizado.
O governo estadual justificou a operação como parte de um esforço para desemaranhar o controle territorial do Comando Vermelho, que, segundo estudos da UFF e do Instituto Fogo Cruzado, continua crescendo no estado. Com um domínio de 51,9% das áreas controladas, a facção tornou-se a mais influente, superando as milícias.
O Instituto Fogo Cruzado destacou que estratégias como a Operação Contenção não enfrentam efetivamente o crime organizado. Em contraste, enfatizam a importância de atacar fluxos financeiros ilícitos e fortalecer corregedorias independentes para erradicar a corrupção interna.
Este episódio só reforça a incapacidade do governo estadual de efetivamente gerir políticas de segurança pública, contribuindo para uma cidade congelada em medo e incerteza, com uma população deixada no fogo cruzado.