Violência Urbana no Rio Aumenta Traumas em Crianças

Efeitos psicológicos do medo constante desafiam o desenvolvimento infantil.

31/10/2025 às 14:28
Por: Redação

Corpos alinhados, drones lançando explosivos, blindados e fuzis, e veículos em chamas caracterizam a situação caótica. Ônibus atravessados nas vias bloqueiam o avanço das viaturas policiais. Munição traçante risca o céu nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro.

Essas cenas foram registradas na última terça-feira (28), quando as forças de segurança estaduais realizaram, no Rio de Janeiro, a chamada Operação Contenção, espalhando-se globalmente. Um cenário que remete a uma guerra urbana sublinha a vulnerabilidade dos cidadãos e reforça diversos estudos: além dos impactos imediatos, a violência urbana gera efeitos duradouros, prejudicando também a saúde mental das pessoas que vivem direta ou indiretamente com a insegurança.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil destacam que, ao transformar o medo em um estado de alerta contínuo, a violência urbana afeta o sistema nervoso, comprometendo o desenvolvimento psicossocial, especialmente de crianças e adolescentes que convivem com tiroteios em áreas controladas ou disputadas por grupos criminosos.

Estresse

“A exposição à violência urbana pode criar um nível de estresse altíssimo, afetando a saúde das pessoas”, explicou a psicóloga Marilda Lipp, uma autoridade em estudos sobre estresse.

Ela aponta que buscar segurança é uma necessidade básica do ser humano, imediatamente após as necessidades fisiológicas (respirar, comer, beber, dormir). Portanto, a sensação de insegurança pessoal, familiar ou comunitária pode provocar perturbações emocionais significativas, que, dependendo do caso, podem causar sintomas de ansiedade crônica ou depressão, como taquicardia, hipertensão, problemas gastrointestinais, distúrbios do sono e apetite, irritabilidade e dificuldades de concentração.

"A resposta ao estresse é fisiológica. Quando ameaçadas, as pessoas liberam hormônios que as preparam para lutar ou fugir. Por isso, um certo nível de estresse é normal, mas nenhum organismo aguenta estar continuamente alerta, como ocorre em pessoas expostas repetidamente à violência ou ameaças", observou Marilda.

As reações e consequências da exposição à violência e insegurança, segundo Marilda, variam conforme a percepção individual dos eventos vividos ou testemunhados. Ainda assim, pessoas expostas a períodos recorrentes e prolongados de estresse estão vulneráveis a adoecer, mesmo as chamadas vítimas secundárias, que não sofrem ameaças diretas mas podem sentir impotência e desamparo.

Criadora do Treino de Controle de Estresse, um modelo de autotratamento, Marilda defende que o Poder Público deveria proporcionar capacitação à população para lidar com o estresse de forma mais saudável.

"Sem discutir os aspectos políticos e estruturais que necessitam ser enfrentados, já ajudaria muitas pessoas, especialmente aquelas sem condições financeiras para contratar um psicólogo ou psiquiatra, ou que enfrentam demora no atendimento pela rede pública" frisou, sugerindo que treinamentos sejam oferecidos em unidades de saúde do SUS e escolas. "Ensinar nossas crianças a lidar com o estresse é muito importante", concluiu.

Coletividade

O professor associado do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), psiquiatra Octávio Domont de Serpa Júnior, assegura que a busca por serviços de saúde aumenta após eventos que provocam comoção e intensificam a sensação de insegurança.

“No Rio de Janeiro, há algum tempo, percebemos que essas situações impactam a demanda na rede de atenção primária, a porta de entrada da saúde pública. Muitas pessoas expostas aos acontecimentos nos complexos do Alemão e da Penha buscarão assistência médica nos próximos dias, se já não o fizeram”, comentou Domont, enfatizando que a questão vai além do sofrimento individual.

“Há também sofrimento coletivo. É uma questão estrutural, política e social que não podemos ignorar. Sem uma resposta adequada à essa dimensão coletiva, este problema continuará impactando todos”, afirmou.

Domont destacou a importância de os profissionais de saúde estarem preparados para oferecer pronto atendimento, acolhendo e cuidando tanto das vítimas diretas da violência quanto das que presenciaram os eventos. Isso é essencial para que os sintomas não se tornem crônicos, principalmente devido à possibilidade de que muitas dessas pessoas enfrentem situações similares no futuro, já que não há uma solução para a questão da segurança pública no horizonte”, concluiu o psiquiatra.

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